30 julho 2009

observação p.i.d. #1 . HUGO LOUREIRO

apetece.me fazer isto em jeitos de carta, como se vivêssemos com um oceano pelo meio e usássemos disto.


algures no porto, a caminho de sintra, dentro de uma camioneta de serviço ocasional, dia 25 de julho de 2009, dia do casamento do filipe e da patrícia.




cara sandra,


ontem filtrei as coisas com a noção de que tudo o que nos acontece serve para perceber o que nos acontece. simplifico. ontem percebi que aconteceu o nosso primeiro PID pós facebook. explico. ontem entendi que o PID tem uma espécie de prefácio que é uma espécie de quizz do facebook. não é a rede social. não é a forma de conhecer pessoas e dizer o que te vai na cabeça. é só o quizz. o jogo. uma espécie de. explico mais detalhadamente. saio da rotina, da lista de coisas que faço sempre que é semana, e mexo.me para ir a amares ver o PID #12. como se clicasse num 'allow', que me permite chegar às perguntas. uma espécie de 'allow'. e chego lá e sinto a pressão de escolher as respostas certas, a frase certa, aquela que me vai dar o meu resultado. uma espécie de 'deixa cá ver se eu consigo desmontar o mecanismo deste quizz, o esquema, perceber as opções que estão por trás de cada resposta, perceber o que pensavas quando fizeste os enunciados'. não li o texto. deixei para o fim. a rapariga antes de mim tem outro método. balança os braços sobre os cd's, como se me estivesse a iludir para que eu não adivinhe qual o cd que vai levar. faz tudo de forma aleatória. escolhe um cd, aleatório, e depois vai ver a frase que lhe saiu na sorte, aleatória. como se percebesse que o importante não é o resultado, mas o mecanismo. o esquema. como se fosse uma táctica dela para preencher quizzes do facebook. ou apenas porque não se consegue decidir. eu, que conheço o mecanismo, ou pelo menos gosto de pensar que sim, apercebo.me que quero mesmo é condicionar o resultado. por isso leio as frases. releio. o tempo de espera permite.me excluir as que já tinha escolhido noutras ocasiões, as que não gosto, as que não me apetece. sobra uma. a número trinta.


30 - mas temos um bocadinho de tédio a mais, não é?


entro na sala onde sei que estás. tudo muito limpo. tudo muito bem instalado. acho isso estranho. esperava a coisa mais caótica, já estás a fazer isto desde as 17.30 e já são 19.00 e qualquer coisa. acho também muito estranho porque é um espaço que são dois espaços. e acho estranho estares lá fora, e eu cá dentro. olho para a instalação. quero ser rápido, por isso olho rapidamente. e muito rapidamente, gosto da instalação (que merda!!). vejo as tuas malas numas mesas à esquerda. imagino as tuas coisas lá dentro, o teu necessaire, a tua roupa do dia seguinte, as caixas e embalagens dos vegetais, o programa deste evento. coisas. não vejo vegetais. oops.. já os vi. são malaguetas (ouvi depois falar de rabanetes, mas sou cego como toupeira, não percebi nada..). vejo o quadro escrito. não reconheço a letra. não sei se foste tu. acho que não. acho que já lá estava. acho que proibiste alguém de apagar aquilo. e há ainda as fitas, a água no chão, a tabuleta de madeira em jeito de lápide (soube depois que estava lá escrito loureiro, obrigado!). e vejo.te. lá fora.
ponho o cd, sentado de forma quase rígida. está tudo muito organizado. não me sinto bem com isso, por isso desalinho as pilhas que estão na mesa e procuro qualquer coisa desarrumada. olho para trás e vejo coisas amontoadas. coisas que eram da sala. coisas que não fazem parte da instalação. sinto.me mais confortável e continuo.
a instalação sonora (gostava de lhe chamar música, sério que gostava) começa. e tu, lá fora. a beber água. seguras a garrafa com as duas mãos e bebes água. não de forma ritualizada, mas de forma concentrada. e bebes e olhas para o céu. sinto.me uma espécie de voyeur. eu de um lado, tu do outro. eu a ver.te, tu a seres vista. eu a ouvir o cd 30. tu a ouvir os pássaros de amares. e a faixa única continua e tu continuas lá fora. diria que 'não fazes nada'. sem as '', tu não fazes nada. não matas a sede, porque não bebes como quem tem sede, mas bebes, como quem não tem sede para matar. vou pensando nisso e 'ploc', cai uma malagueta da fita amarela. oops, não era suposto, hahahaha, nada era suposto hugo! não era suposto tu estares cá dentro, a sandra lá fora, cada um no seu espaço, a malagueta cair, nada acontecer. não há supostos aqui. fui.me distraindo disso, assim como tu te foste distraindo com qualquer coisa que a miopia e o astigmatismo não me deixam ver. e enquanto brincas com uma folha, ou terra, ou formiga, olho para a água no chão e tento imaginar quem estava ali e com que música quando fizeste aquilo. imagino outras coisas, outras pessoas, outras músicas. e continuo assim distraído, cá dentro, tu distraída, lá fora, no que é suposto, no que não é suposto, no que é e no que não é. e o som acaba.
o som acaba e tu pões.te a pé e entras e colas a malagueta no sítio dela e pegas no teu maço de cigarros começas outra coisa. tudo mal o som termina. sincronizado ao segundo. a música acaba (chamei.lhe música) e tu começas outra coisa. foda.se! aquilo já não era para mim. já não estas distraída. já é outra coisa, para outra música, para outra pessoa. ou algo para ficar no interstício, no espaço entre pessoas e músicas e isso. e lá pego no cd, pois sei que estou a mais ali, e saio e penso se será possível tu sentires que as coisas acabam para te apetecer levantar e entrar e estar cá dentro.
no corredor vejo caras, já não muitas, curiosas. querem perguntar o que aconteceu. o que vai acontecer. querem saber se é sempre assim, ou se foi só para elas assim. qual o número que te saiu? no fundo, querem saber o resultado final do quizz do facebook e saber se temos o mesmo e o que quer isso tudo dizer (aqueles textinhos miúdos que vêm sempre associados ao resultado e que tornam tudo muito mais claro).
saio da escola e começo a escrever notas para te poder enviar esta carta. não me quero esquecer de nada. e à medida que vou apontando coisas soltas, penso que a PID é muito parecida com aquele jogo das frases, em que uma pessoa escreve uma frase de modo a dobrar o papel e deixar a última palavra à vista. o próximo jogador começa a frase nessa palavra e faz o mesmo que a pessoa anterior. e assim sucessivamente, até que um texto se forma. mas depois lembrei.me que neste caso, ninguém sabe o texto. nem tu. aquilo é só aquilo. e o resto são metáforas.
depois estivemos juntos e viste o rumpelstiltskin e jantámos e foi isso. dessa parte há fotos.
beijo que te gosto muito. e haverá mais PID. likewise, bea arthur is dead.
teu, sereio

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