21 abril 2009

#2

e há sempre rapazes virgens de espírito espalhados pelas alcatifas desses salões das entregas de prémios. ansiosos. por uma revelação de qualquer coisa. com canetas de tinta permanente a apontar os pulsos. autografa-me aqui. a ver se eu vislumbro um pouco de amor. a levar a mão com a caneta dos pulsos ao sexo. como se o amor detivesse um local exacto. uns idiotas. espraiados nas alcatifas vermelhas e desbotadas desses tais salões de prémios. a masturbarem-se cada vez que alguém diz qualquer coisa que se possa chamar de poema. muito tímidos. muito identificados com o salão de prémios. com as pernas cada vez mais abertas. em posição de mulher não intelectual que pare. e parem. nascem filhos nas alcatifas desses salões de prémios. enquanto os microfones com suporte de mesa fazem feedback mesmo antes de anunciar a vencedora. entram brigadas de galochas para limpar aquela gosma e levar os filhos prematuros destes rapazes virgens de espírito. o tal salão de prémios cada vez mais vermelho. e os rapazes. coitados. desidratados. taquicardíacos. muito à procura do sentido da vida. e maternais, foda-se. muito confundidos. muito com vontade de matar os filhos que a brigada de galochas levou. muito com medo de levarem a mão ao sexo e não sentirem nada. quase nada. só um buraco. coitados. a chorar convulsivamente na alcatifa rafada dos tais salões. débeis. e depois passa a mulher que dá autógrafos. e eles muito estúpidos a pensar no amor. a dizer amo-te quando nem estão capazes de ir à mercearia comprar pão para fazer torradas.
(é muito imbecil da parte de qualquer rapaz querer qualquer coisa insondável sem estar apto a fazer compras na mercearia no domingo de manhã. uma mulher esperta deixa-o a dormir e vai ela às compras. com o intuito de cometer todo o tipo de crimes nesse trajecto.)
a rastejar na alcatifa. com as placentas ainda quentes a denunciar a virgindade espiritual. tão diluídos estes rapazes. com cabeças abstractas e punitivamente prontas a dar de frente com portas. paredes. omoplatas de mulheres maduras. um abismo que pode dar em dezenas de rapazes virgens enforcados com as suas placentas nas ventoinhas desses tais salões de prémios. ou pode dar para pior. a castidade é sempre uma vertigem negativa.
agora que sei disto. faço-me aos prémios e a essas coisas basilares da vida. só para ganhar um esquadrão de rapazes virgens.

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